Entre Kyoto e a Lua

Entre Kyoto e a Lua

Lara Lutzenberger - Fevereiro de 2005 • 18/02/2005

Quando em 1969, o Homem pisou pela primeira vez na lua, o fez buscando conhecer de perto esse pequeno satélite branco, que refletindo tenuemente a luz solar sobre nossas noites, acolhe e inspira os namorados a expressar o lado mais passional da vida. Tivesse a lua uma consciência, poderíamos então desconfiar de que sua pálida face está senão espreitando-nos ciumenta, na esperança de contagiar-se com tanta vitalidade terrestre.

A maior descoberta dessa aventura austronáutica, não foi tanto a lua, como pensávamos, mas, sim, a Terra vista do além, em todo o seu conjunto, numa única mirada! Uma terra de muitas cores, de muitos jeitos e trejeitos, envolta por um véu branco esvoaçante a rodopiar inocentemente no imenso vazio universal. Uma terra VIVA, estimulada pelo sol e inspirada pela lua!

Pois, ao deixar sua primeira pegada na lua, o Homem deu o primeiro passo para desbravar a si mesmo, identificando-se como parte da Terra e a Terra como uma extensão de si mesmo. Sua auto-percepção deu um salto cósmico e a vida foi tomada de uma dimensão astronômica.

Mas, como sabemos, emoções são volúveis e a rotina mundana permeada de pequenos interesses, foca nossas atenções dispersando-nos da percepção de conjunto. E, dia a dia, seguimos sugando a força vital terrestre, desencadeando alterações cada vez mais comprometedoras nos sistemas de auto- regulação hídrica, geológica e climática que sustentam nossas aspirações.

A ratificação do Protocolo de Kyoto 36 anos depois de nossa experiência lunar é um novo marco nessa história. As metas oficiais de redução dos gases de efeito estufa, os componentes que alteram a leveza de nosso manto, superaquecendo e desestabilizando nossa jornada, são evidentemente muito modestas: propomo-nos a uma redução global de 2%[1] até 2012, em relação ao patamar de 1990, quando estudos do IPCC[2] demonstraram que deveríamos buscar a redução de 60% desses gases, se quiséssemos voltar às concentrações naturais, vigentes antes da era industrial.

Nos últimos 15 anos, entretanto, continuamos investindo na queima dos combustíveis fósseis, na geração desenfreada de lixo descartável, em sistemas agrícolas devastadores para a biodiversidade e para a fertilidade de nossos solos, entre outras práticas incoerentes, que resultaram num sensível aumento das emissões atmosféricas.

Novamente, temos de admitir nossa incompetência em traduzir emoções genuínas em práticas consistentes de preservação da vida.
Ou será que nem todos fomos sensibilizados pela inveja da lua?


Lara Lutzenberger


* Publicado no Jornal do Comércio em 02 e 09 de março de 2005

[1] Somente os países em desenvolvimento devem buscar a redução de 5,2% das emissões de gases de efeito estufa, o que no conjunto total das nações representa um índice de ~2%.
[2] Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que em suas pesquisas científicas orienta as discussões no âmbito da Convenção Quadro das Mudanças Climáticas, da qual decorre o Procolo de Kyoto.
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× Projeto Gaia Village

Projeto Gaia Village

Gaia Village é um projeto de caráter privado com foco em sustentabilidade, que se desenvolve a partir de uma área pristina no município de Garopaba-SC. Ambiciona criar um exemplo de assentamento humano sustentável, um ambiente amigável para a interação entre a espécie humana e o todo — o Sistema Vivo Gaia.

As primeiras formulações para a concepção desse projeto foram feitas pelo professor José Lutzenberger, em 1997. O objetivo é propor, planejar, implementar e demonstrar soluções ambientalmente responsáveis, em direção a um desenvolvimento sustentável.

Consubstanciado fisicamente na propriedade da família Werlang e de sua empresa G.A. Werlang — Gestão e Ambiente Ltda., localizada junto à Praia do Ouvidor, Praia da Barra e Lagoa da Garopaba, no município de Garopaba, sul do estado de Santa Catarina, o projeto se estrutura a partir da concepção de vida pessoal de Carmen e Gastão Avelino Werlang, que já nos anos 60 promoviam ações com vistas à preservação ambiental.

O projeto, com iniciativas em curso em sua sede e junto às diversas comunidades do município de Garopaba, se expande por meio da construção e consolidação de redes e parcerias com indivíduos, comunidades, organizações não governamentais e órgãos do governo.

× Agricultura Regenerativa

Agricultura Regenerativa

A Agricultura Regenerativa consiste em promover a produção de alimentos saudáveis, a criação de ciclos fechados de geração de insumos a partir de resíduos e a aplicação no campo de práticas conservadoras da natureza.

Projeto: "Capacitação de Agricultores Familiares como Promotores da Agricultura Regenerativa no Rio Grande do Sul / 1997 - 1999"

Iniciamos um novo projeto de atuação junto a agricultores familiares do Estado do Rio Grande do Sul com aprovação parcial de orçamento por parte da instituição alemã Heinrich-Böll-Stiftung. Desta vez, selecionamos as propriedades que melhor responderam às nossas expectativas no projeto anterior para o aperfeiçoamento das técnicas de cultivo e, principalmente, para a realização de um treinamento direcionado à formação de alguns agricultores, como promotores da agricultura orgânica, garantindo a continuidade do processo, mesmo sem nosso envolvimento direto.

Concomitantemente, trabalharemos para a consolidação de algumas propriedades como referência em agricultura orgânica, nas quais se verificará o uso exclusivo de métodos regenerativos de cultivo.

Tratam-se de 163 famílias, em torno de 560 pessoas, distribuídas em 12 comunidades diferentes e organizadas em cooperativas ou associações. O grupo inclui agricultores de origem alemã, italiana, indígena, bem como assentamentos do Movimento dos Sem-Terra.

Neste primeiro ano realizamos os primeiros Encontros de Formação de Promotores Agroecológicos, abordando inicialmente conhecimentos agrícolas amplos para a compreensão do processo de produção. Na realização de cada módulo é finalizado com participantes uma apostila que deverá servir de material didático para os futuros promotores. Por demanda dos próprios agricultores, daremos ênfase às questões de oratória e desinibição na próxima fase.